Era uma vez, um ano novo.

Author: Silvair Junior /

Como escritor amador e iniciante, habituei-me a ver tudo como enredo e todos como personagens. A vida me pode ser resumida em papel e lápis.
Assim sendo, hoje passo a escrever um novo livro. Encerrei o que continha o título "2011". Foi uma história difícil. Vi a fundo alguns sentimentos e emoções que nunca pensei. Foi bom pelo meu crescimento interior, mas foi uma história que exigiu muito da minha paciência.
Hoje começo um novo capítulo de um novo livro.
Chama-se "2012". Tenho grandes propostas para este um.
Começo a escrever sob o aroma frio da mudança. Cheira bem. Me faz bem.
A mão corre livremente pelo papel desenhando as pequeninas letras do meu ânimo.
Meu último livro foi narrado aos prantos, escrito com sangue e lágrimas.
Meu novo livro é banhado a ouro, escrito em naquim sobre o papel virgem.
Que farei com no decorrer da história, só o tempo dirá. Contudo,
posso assegurar que este novo livro promete tempos de alegria plena.
Um belíssimo novo livro a todos!

Adeus ano velho. A Deus, ano novo.

Author: Silvair Junior /

Adeus ano velho!

Você foi o melhor dos anos, à sua maneira. 
Tiramos de você o que pudemos para que pudéssemos ser pessoas melhores. 
Crescemos, aprendemos, vivemos intensamente para que nada fosse perdido. 
Banhamos alguns dias de lágrimas. 
Ninguém é de ferro, afinal. 
Fizemos pouco caso de alguns dias, nem todo dia é louvável. 
Amei muito sob sua primavera, 
suei ao sopro do seu verão, 
recolhi-me ao seu outono, 
abracei o seu inverno. 
Ah, velho ano. Que saudade esta que você já desenha.
Você se vai carregando parte de mim.
Você agora me deixa e eu deixo um pouco do meu ser contigo.
Não posso levar tudo, é muita bagagem pra carregar.
Tenho que dar espaço para os novos sentimentos, as novas pessoas, os novos amores e as novas dores.
Não se sinta esquecido.
Você está guardado nos olhos de Deus, e no meu coração.
Dê seu abraço fraterno ao novo ano, ele precisa de você mais do que imagina.
Ingênuo, nada sabe. Mal engatinha. Ouço apenas o choro do recém-nascido chegando.
Ano velho,
deixo com você minhas tristezas.
Preciso de felicidade, você entende.
Preciso estar pleno para atender ao infante vindouro.
Sentirei falta do velho que fui, que faz parte do novo que sou.
Obrigado pelos amigos que ganhei e pelos que mantive.
Não conseguiria sem sua ajuda.
Descanse em paz com minhas lembranças, precisarei delas mais tarde para contar aos meus netos.
Adeus, ano velho. Adeus.
A Deus, tudo devo por este ano ido.
A Deus, tudo devo por poder comemorar mais uma passagem.
A mim, novas ideias, novas alegrias;
A vocês, novas felicidades, novas conquistas.
Adeus, ano velho.
A Deus, ano novo!


Desejo a todos vocês que fizeram meu 2011 um ano espetacular, um 2012 tão repleto quanto inesquecível! Espero ter ao me lado mais ainda todos os que amo e admiro. Desejo a paz de Deus a todos. Que Ele abençoe a todos e a cada um de vocês com dias gloriosos!

No mais, obrigado a todos por tudo.
Nos vemos ano que vem!

-Silvair Junior ou J.Freitas

Otto e os Quatro Irmãos - Capítulo um

Author: Silvair Junior /


Capítulo um
Sinais





Era um dia calmo. E só. Não era um dia que aparentasse querer ser lembrado por algo e, num dia como esse, Deneb se achava sentado sob a sombra de um dos pinheiros que compunham sua floresta.
As árvores tinham certa distância umas das outras, o que permitia que se fossem observadas áreas onde o sol alcançava sem impedimentos o gramado muito verde, conferindo uma luminosidade esverdeada ao ambiente sob ele.
Sem qualquer aviso ou sinal, nuvens espessas e carregadas encobriram o sol de tal forma que o dia verteu-se em quase noite. Uma ventania intensa se abateu sobre a floresta e seus arredores, se estendendo por milhares de quilômetros. Alguns dos pinheiros eram arrancados pela raiz como se fossem apenas velas de aniversário fincadas num bolo.
Mais repentinamente ainda, começou a chover como nunca havia chovido. Gotas volumosas de água golpeavam o corpo de Deneb, contudo, ele sequer movia um músculo diante de tudo o que estava acontecendo. Permanecia sentado, envolto em seus pensamentos enquanto sua roupa encharcava.      


Antes que se pudesse notar, todo aquele caos havia cessado.  O sol estava novamente iluminando aquele dia que estivera calmo até aqueles eventos ocorrerem. Um calor insuportável chegava a quase sufocar o homem sob a árvore.
Logo em seguida, um forte tremor fez com que mais algumas árvores que resistiam de pé despencassem ao chão, inclusive aquela cuja sombra protegia Deneb. Ele foi obrigado a abrir suas longas asas e voar para esquivar-se do enorme tronco que ameaçava sua vida.
O tremor cessou. O calor amenizou-se.
Cabelos curtos, fios grisalhos perdidos nos castanho-acinzentados. Olhos tão azuis quanto o céu que contemplavam, roupas simples e humanas, aparentando apenas a “meia-idade” terrestre. Este era Deneb. Um espírito herói de guerra, cansado e abatido. As longas asas exibiam o que pareciam ser áreas queimadas. A asa esquerda possuía um espaço vazio bem ao centro, permitindo ver o outro lado. Os braços eram cobertos por inscrições de caligrafia fina e por desenhos estranhos. A certa distância, as tatuagens pareciam ser alguma camada escura de fuligem em sua pele.
─ Não vejo isso acontecer desde... desde... ─ Deneb interrompeu a própria fala grave e rouca quando se lembrou de tempos remotos. Tempos que temia lembrar, e mais, temia revivê-los. Algo não estava bem. E ele sabia melhor do que qualquer outro que aqueles eventos estranhos, eram sinais de que tempos perigosos eram iminentes.
Com as longas e maculadas asas, Deneb projetou-se para o ar o mais alto que pôde e fez um movimento displicente de mãos, fazendo algumas nuvens acinzentadas aparecerem e se juntassem imediatamente sobre sua cabeça. Em seguida, elas abriram-se numa espécie de portal circular no qual Deneb entrou rapidamente, saindo num lugar completamente diferente de onde estava.
Com imponência, ele desceu flutuando lentamente até o chão. Estava numa cidade que não se assemelhava em nada às cidades no planeta Terra. As casas eram dispostas ora em círculos, ora em triângulos. Algumas até nem seguiam padrão algum, eram apenas justapostas ou apinhadas. Os prédios não tinham fim, uniam-se a superfície arroxeada do céu. Perto dali, um prédio era retorcido num arco que ia quase que de um extremo a outro da cidade.
─ Olhe só quem veio visitar a cidade depois de tantos anos! Deneb! ─ disse um homem gordo e baixo logo atrás de Deneb, com uma alegria que se podia quase sentir.
─ Baham! Faz tanto tempo desde a última vez que nos vimos! ─ respondeu Deneb dando um caloroso abraço no homem que o cumprimentara.
─ Que bons ventos o trazem até Angra tão repentinamente? ─ perguntou Baham.
─ Receio que não fui trazido até aqui nem por uma brisa solitária de boas notícias... aliás, trago notícias terríveis... ─ disse Deneb com o semblante exibindo preocupação.
─ Ora, meu amigo! O que há de tão grave? ─ perguntou Baham mais uma vez.
─ Bom... indo direto ao ponto, acredito que estamos prestes a enfrentar uma guerra como a que enfrentamos naquela vez em que eu... ─ Deneb parou de falar. As lembranças em sua mente o obrigaram mais uma vez a calar-se
─ Deneb, não se culpe. Já faz muito tempo. E no final das contas, você só tentou ajudar. Fez o que precisou ser feito. Essas marcas que você carrega no corpo e nas asas são marcas não de guerra, mas, de heroísmo. Você ajudou a salvar este lugar ─ falou Baham tentando consolar Deneb.
─ A última vez que aconteceu foi aqui. Aqui onde há espíritos treinados para situações de risco, mas, temo que desta vez o campo de batalha seja um planeta muito mais frágil: o planeta Terra ─ disse Deneb, que prosseguiu o assunto diante da face de espanto e preocupação estampada no rosto de Baham. ─ Dessa vez, seres humanos sofrerão as consequências de mais uma de nossas guerras. Não há como os humanos suportarem o que está por vir... tenho que avisar ao conselho para que eles tomem as devidas providências.
─ Você vai avisar ao mesmo conselho que começou isso elegendo aquele bando de gananciosos e arrogantes? ─ perguntou Baham indignado.
─ Não há alternativa. Eu estou fraco demais para resolver tudo sozinho e, mesmo que estivesse forte, a menos que eu fosse convocado, eu não poderia me aventurar numa batalha sem autorização ─ respondeu Deneb.
─ Faça o que achar correto, meu amigo, eu o apoiarei no que precisar, mesmo que você esteja indo de encontro justamente aos culpados por tudo isso estar acontecendo de novo ─ concluiu Baham despedindo-se de Deneb, que levantou voo novamente.
Enquanto voava, passava por algumas casas ainda mais estranhas: eram inseridas no chão, de modo que o bairro todo delas parecia ser um vão na cidade com desenhos de casas vistas de frente. Bem na hora, um homem magro e velho abriu a porta de sua casa fazendo parecer que ele estava saindo de uma escotilha, abriu suas asas e voou na direção contrária a Deneb.
Quanto mais Deneb se aproximava do centro da Cidade, mais via o movimento de espíritos e espíritas voando para todos os lados.
Deneb pousou na frente de um majestoso palácio de mármore bege. Era tão alto que parecia unir-se ao céu arroxeado e tão imponente que sugeria a qualquer desavisado que não era qualquer um que entrava nele. O espírito materializou uma chave dourada adornada com pequenas inscrições parecidas com os desenhos nos seus braços, e a introduziu numa pequena fechadura que surgiu no chão. Ele girou a chave e afastou-se um pouco, pois, o chão cedeu formando o que parecia ser uma entrada subterrânea para um porão. Deneb entrou descendo a escada que se formara e se viu num longo corredor de luminosidade azulada. No teto, incontáveis salamandras eram responsáveis pela iluminação do local. Ao se olhar para o teto, elas aparentavam ser pequenas luzes de neon em constante movimento.
O homem seguiu andando até o fim do longo corredor e se deparou com uma enorme águia de pedra que, ao ser tocada pela mão de Deneb, ganhou cores e vida. Suas penas eram negras como a noite, seu bico possuía um brilho acobreado e os olhos lembraram dois rubis.
─ Identifique-se, visitante ─ ordenou a águia com uma voz fantasmagórica.
─ Deneb, filho de Capricornus, mestre condecorado por Omnimodus, ex-irmão, representante da Terra ─ respondeu Deneb.
A águia desapareceu em meio a uma fumaça negra revelando um portal. Deneb passou por ele e chegou a um grande salão de mármore extremamente polido, que estaria vazio se não houvesse apenas uma mulher ranzinza e solitária com os pequenos óculos equilibrados na ponta do fino e adunco nariz, sentada fazendo anotações nos inúmeros papéis sobre sua mesa.
─ Olá... eu queria falar com o... um momento. Desde quando você trabalha aqui? ─ perguntou Deneb um tanto confuso.
─ Bem, desde que o conselho me convocou. Por quê? ─ perguntou a mulher.
─ Porque... nem sempre o conselho precisou de uma recepcionista  ─ respondeu Deneb.
─ E por acaso isso é algum crime? O conselho fez uma sapientíssima decisão, se quer saber. Comigo aqui, fica cada vez mais difícil, melhor dizendo, fica impossível que qualquer um entre aqui. O que me faz retornar ao questionamento interno que me fiz há alguns minutos: o que você quer aqui? ─ perguntou a mulher arrogante esquadrinhando cada centímetro do corpo de Deneb com o maior desdém que pôde demonstrar.
─ Certamente vim até aqui para perguntar a eles como preferem o seu chá. O QUE MAIS VOCÊ ACHA QUE EU VIM FAZER AQUI? ─ perguntou Deneb a ela, dessa vez pontuando o final do questionamento com um pesado e sonoro soco na mesa da recepcionista, que se partiu em dois pedaços, derrubando tudo o que estava sobre ela.
─ Vou tornar isto mais simples e civilizado, se me permite ─ disse a mulher levantando e tirando seus pequenos óculos. ─, ou você some daqui agora ou terá que arcar com algumas consequências severas.
─ Minha senhora, com todo respeito, eu não ligo pra nenhum tipo de ameaça, ainda mais quando vinda de alguém tão desagradável. Eu vim até aqui para passar uma informação ao conselho. Uma informação, no mínimo, desastrosa e não será você quem vai me impedir ─ disse Deneb tentando ser o mais cordial e ameaçador quanto fosse possível.
─ Sim, senhor. Serei eu a pessoa que vai impedi-lo de entrar na sala do conselho. Se você queria ter qualquer conversa ─ por mais séria ou casual que fosse ─ com eles, deveria ter marcado horário e ter aguardado pacientemente a convocação oficial dentro de alguns dias...


─ Temos que dar andamento à nomeação dos próximos irmãos. Agora, o que temos que decidir é quem serão os quatro novos irmãos.
─ Eu gostaria de indicar meu irmão Achird. Todos nós sabemos que ele tem grande potencial para ser o próximo Flamma e...
─ E eu acho que essa escolha deveria ser algo votado por toda a cidade e não algo decidido às escuras. Todos nós sabemos o que esse tipo de decisão causou da última vez. Acho que pelo menos desta vez vocês deveriam fazer as coisas da maneira correta.
─ DENEB? O que você está fazendo aqui? Como passou pela recepcionista? ─ perguntou um dos que estavam à mesa.
─ Recepcionista? Qual? Esta aqui? ─ respondeu Deneb materializando o corpo inerte da mulher com quem acabara de ter um confronto. Ela estava com várias partes do corpo ensanguentadas e com suas roupas cheias de marcas de queimaduras.
─ O que você...
Deneb estava diante de vários homens e mulheres elegantemente vestidos e sentados em volta de uma grande mesa circular de madeira extremamente lustrada, em cujo centro jazia o corpo da recepcionista nocauteada após Deneb tê-la lançado contra eles.
O local parecia um templo ao poder. Havia várias estátuas de ouro maciço de homens e mulheres alados em posições heroicas apoiadas nas paredes. Sobre a mesa do conselho, taças do mesmo ouro que as estátuas para cada integrante, com pedras preciosas incrustadas nelas. O ambiente inteiro possuía o brilho do ouro unido ao tom arroxeado do céu, que passava pelas grandes e suntuosas janelas da sala do conselho.
Um dos que estavam sentados à mesa levantou-se e encarou Deneb. Tinha a aparência bem velha e trajava um sobretudo preto por cima do colete prata e da camisa na mesma cor. As calças retas e de fino corte, possuíam o mesmo tom preto do sobretudo.
─ Só me ajude a entender uma coisa: o que você veio fazer aqui depois de tantos anos? ─ perguntou o homem acariciando sua gravata azul-marinho, com seus curtos cabelos muito alvos reluzindo sob a luminosidade arroxeada.
─ Vim fazer um alerta. Um alerta gravíssimo. Temos que nos preparar o mais rápido possível para uma guerra pior do que...
─ Pior do que a que você ajudou a causar? ─ perguntou o homem em tom de vitória, calando Deneb. ─ Meu bom homem, nós temos tudo sob controle. Toda vez que há a transição de velhos irmãos para novos, sempre estamos preparados para... você sabe... essas “intriguinhas”.
─ Intriguinhas... estamos prestes a testemunhar a destruição completa do planeta Terra e você me diz que isto é uma INTRIGUINHA? ─ perguntou Deneb alterando-se novamente.
─ Um momento, planeta Terra? O que você quer dizer? ─ perguntou o homem.
─ Exatamente o que você entendeu Aldebaran. Os quatro irmãos estão novamente em guerra e, dessa vez, o campo de batalha não será Angra. Será o planeta Terra ─ respondeu Deneb.
─ Bem, isto sim é algo grave. Teremos muito prazer em solucionar este problema assim que decidirmos quem serão os próximos quatro irmãos. Quem sabe assim não elegemos espíritos mais responsáveis desta vez ─ respondeu Aldebaran.
─ Eu duvido muito, afinal, a escolha é feita baseada no nível de influência de cada um e não em seus méritos ou em seu caráter. Não me admira que os mesmos quatro irmãos que estão ameaçando destruir um planeta inteiro tenham sido escolhidos por este mesmo conselho! ─ disse Deneb.
─ O que me lembra algo curioso... ah, sim. VOCÊ TAMBÉM FOI ESCOLHIDO POR ESTE MESMO CONSELHO! ─ disse Aldebaran a altos brados, com o dedo em riste para Deneb.
─ Eu me lembro muito bem disso. Lembro-me disso em cada dia da minha existência vazia. Por que você acha que eu nunca mais coloquei os pés em Angra? Foi por vergonha de tudo o que eu fiz! Vergonha de ter sido membro daquela corja! ─ falou Deneb também gritando, fazendo com que os outros presentes se contraíssem incomodados pela gritaria dele e de Aldebaran.
─ É assim que você agradece o favor que eu lhe fiz? Eu que o coloquei dentro do grupo dos irmãos. Eu ajudei a nomeá-lo e é assim que você agradece? ─ perguntou Aldebaran baixando o tom de voz, porém, mantendo uma expressão ameaçadora na face.
─ As coisas mudaram, Aldebaran. Eu já não sou o mesmo de antigamente. Hoje sei o tanto que aquilo foi errado e não vou mentir: não sou grato sob nenhuma circunstância pela minha nomeação. Você só me ajudou a ser alguém que nem mesmo eu sabia que poderia ser um dia: cego, arrogante e inconsequente. Eu era apenas isso, mais nada ─ respondeu Deneb.
─ Vamos injetar uma dose de honestidade à nossa conversa, certo? Não haja como se agora você fosse a ovelha arrependida. Ninguém muda tão drasticamente de caráter. Apenas aceite que as coisas acontecem porque têm que acontecer. Você não ficou “cego, arrogante e inconsequente” por minha causa ou por causa da sua nomeação, você era “cego, arrogante e inconsequente”. Não por minha causa, era algo de dentro, de dentro de você ─ disse Aldebaran.
─ Não importa o que eu fui ou o que eu sou agora, o que importa é o que vamos fazer para impedir os quatro irmãos de destruírem a Terra ─ falou Deneb.
─ Bem, eu, enquanto presidente deste conselho, sugiro que retomemos o plano inicial: nomearemos os novos irmãos e as coisas se acertarão sozinhas depois ─ disse Aldebaran.
─ É só isso? Você sugere que façamos APENAS ISSO? ─ perguntou Deneb se aproximando de Aldebaran com a intenção de agarrar-lhe o pescoço.
─ Afaste-se. Não ouse tocar um só dedo imundo seu em mim. O que nós do conselho vamos fazer agora, é exatamente o que acabei de sugerir, aliás, faço da minha sugestão uma ordem. E você só fará uma coisa: sairá pela mesma porta que entrou e deixará isto nas mãos certas. Não se meta mais nesse assunto. Se dessa vez os quatro irmãos resolveram brincar em solo humano, que seja. Antes lá do que aqui novamente. Não tente...
─ Você já parou para pensar por um instante que esta decisão não depende só de você? O que Omnimodus pensaria disto? ─ perguntou Deneb interrompendo Aldebaran.
─ Omnimodus é um espírito falido! Está ficando senil. Não sei se você percebeu, mas, ele deveria estar nesta reunião e onde está? Se escondendo no corpo de um moleque adolescente! ─ disse Aldebaran.
─ Um garoto adolescente que por acaso ajudou a salvar o planeta Terra da invasão de Crudelis! Sim, mesmo eu que fiquei todo esse tempo em reclusão fiquei sabendo. E mais, sei que um exército muito grande foi lutar ao lado do garoto. Você quer me dizer então que estes mesmos espíritos que ajudaram a salvar a Terra vão ser omissos quando aquele planeta está novamente sob ameaça? ─ perguntou Deneb.
─ Os que lutaram naquela batalha não passavam de fanáticos! Arriscaram-se numa luta estúpida e inútil. Aquele planeta já se condena por anos. Crudelis estava fazendo apenas um favor! ─ respondeu Aldebaran.
─ Falando assim você até parece estar do lado de Crudelis... ─ disse Deneb.
─ Estou do lado do bom senso. O mesmo bom senso que me faz insistir em manter o plano. Se os quatro irmãos entrarem num conflito real, veremos o que podemos fazer, mas, enquanto isso trataremos das formalidades, o que é, aliás, nosso trabalho. ─ respondeu Aldebaran.
─ O que você está fazendo é um grande erro. Omnimodus saberá disso e você terá que se explicar... ─ falou Deneb.
─ Não tenho medo de Omnimodus. Ele é o rei, mas, sabe que precisa deste conselho para ajudá-lo a resolver suas pendências. No final das contas, ele terá que me ouvir e terá que fazer tudo exatamente como o conselho sugerir, afinal, nós estamos aqui para fazer tudo transcorrer da maneira mais correta possível e...
─ Então por que você não me diz agora o que o conselho decidiu sobre como proceder? Como vocês farão tudo transcorrer, como você disse, “da maneira mais correta possível”?
─... O-Omnimodus...
─ Rei Omnimodus, é uma honra vê-lo novamente ─ disse Deneb curvando-se à presença daquele homem de vestes verde-esmeralda à porta.
─ Diga-me Aldebaran, já que você não tem medo de mim e isso eu aprecio , não quero ser temido, e sim, respeitado. Diga-me como o conselho sugere que devamos proceder diante de uma nova guerra iminente? ─ perguntou Omnimodus com o semblante muito sério.
─ Bem, sugiro que continuemos a eleição dos novos irmãos e, se os atuais iniciarem uma batalha interna, avaliaremos a necessidade de uma intervenção... ─ respondeu Aldebaran.
─ Pois eu sugiro que o conselho convoque os quatro irmãos para uma reunião extraordinária para chegarmos a um acordo o mais breve possível e evitarmos perdas. Se eles não concordarem, eu os enviarei para as profundezas de um buraco-negro. É isso que faremos. Não vou cometer o mesmo erro duas vezes. Permiti que este conselho fizesse o que achava mais prudente e agora carregamos uma guerra muito semelhante nas costas! Agora faremos do meu jeito. Depois de resolvida esta situação com os quatro irmãos, colocaremos a nomeação dos próximos irmãos para ser votada entre todos os espíritos do nosso mundo. Ponto ─ disse Omnimodus decidido.
─ Mas, Omnimodus...
─ Nada de “mas”, Aldebaran. Esta conversa e esta reunião estão encerradas ─ Após concluir sua fala, Omnimodus, com um gesto discreto de mão, acordou a recepcionista que, até então, tinha permanecido todo aquele tempo desacordada sobre a mesa do conselho e saiu da sala. No corredor iluminado pelas salamandras azuis, que levava à saída, foi parado por Deneb.
─ Omnimodus, obrigado por concordar comigo. Eu realmente não sabia mais o que dizer para convencer Aldebaran a agir ─ disse Deneb.
─ Muito admirável da sua parte vir até aqui para avisá-los. Grato estou eu. Agora, preciso que você avise a todos os espíritos possíveis para se prepararem para mais uma possível guerra. Não quero que haja nenhuma perda desta vez ─ ordenou Omnimodus.
─ Mais uma coisa... onde está o garoto que ajudou a salvar o planeta Terra e destruiu Crudelis? ─ perguntou Deneb.
─ Para surpresa de todos, está aqui em Angra. E sobre ele ter destruído Crudelis, temo que não seja um fato... ─ disse Omnimodus.
─ Como assim? Então quer dizer que toda aquela batalha foi em vão? ─ perguntou Deneb.
─ Não totalmente. Agora o garoto está mais forte. Caso Crudelis reapareça, ele saberá com certeza o que fazer ─ respondeu Omnimodus.
─ Se você diz... certo, então, vou agora avisar a todos que...
─ Primeiro eu preciso que você vá até a casa do Solis e avise a ele e aos seus amigos o que está acontecendo ─ ordenou Omnimodus, interrompendo Deneb.
─ Ele mora na antiga casa do irmão dele, não é? O Levis. ─ perguntou Deneb.
─ Sim. Avise a ele e ao Otto que mais uma vez o planeta Terra está correndo grave perigo e que, mais uma vez, eles terão que entrar numa guerra para salvá-lo, pois, se não fizermos nada, os humanos não terão a menor chance.

16-11-10

Author: Silvair Junior /

Não me lembro com exatidão
de algum momento em que sua mão
agarrei para que minhas pernas tortas
não me levassem ao chão.
Nem sei se minha dor
pode se equiparar à dos frutos do seu ventre
sendo eu apenas o rebento de um deles.
Não me lembro de ter trocado
um um par de palavras sobre a vida.
Hoje troco-as comigo mesmo, sobre a morte.
Por mais estranho que seja,
não me lembro de seu rosto
mesmo ele me sendo tão recente.
Perdão por eu apenas poder
me lembrar deste dia.
Perdão por ter como lembrança sua
este único dia.
Este chuvoso dia
em que o céu ganhou mais uma estrela
brilhante
e fria.

Manhosa manhã

Author: Silvair Junior /

Dia após dia vou vivendo
nunca sabendo no que vai dar.
Vivo de epítomes, vivo de momentos,
mas de epítomes nunca entendendo,
embora sabendo que o fim há de chegar.
Levanto de dia, embora não acorde,
ou mesmo suporte aquela cantoria
dos pássaros despertos, despertadores.
Levanto cheio de dores
da noite mal dormida.
Ao som dos despertadores, que fome.
Preciso de comida!
O chão frio, enregelante
desde meus tempos de infante,
rouba-e o pouco calor dos pés.
Queria estar calçado ao invés,
porém, nunca me lembro de fazê-lo,
mesmo depois de todo zelo
de mamãe ao colocar para mim
as chinelas aos pés da cama.
O sol fustiga pelas janelas como chama
minhas pálpebras, fechadas como portas.
Quero ver o dia, apreciá-lo
ou talvez agir como quem se importa.
Quero mais molhar o sol. Apagá-lo.
O café quente exalando cheiro forte,
insolente sinto-me
por quem não tem a mesma sorte.
Em aprumo,
faço da saída o rumo,
do mundo, o objetivo,
do dia a dia, incentivo.
Às vezes nada.
Às vezes sumo...

Palco de todos

Author: Silvair Junior /

A vida é sim esse eterno espetáculo.
Escolhe os atores ao acaso
enquanto ficamos desejosos pelo papel de protagonista.
Os atos se sucedem em destoante consonância,
o fim submete o começo,
o meio se faz síntese e antítese dos companheiros.
A leveza da comédia se desvela e se anula na gélida tragédia,
altos e baixos se fazem texto narrado pelo destino,
a máscara crua protegendo a carne nua da realidade,
a pesada roupagem retendo o suor lacrimoso.
E assim a vida faz sua arte...
Faz de nós fantoches.
Manipula, usa, abusa, descarta
Confusa.
Já escreveu tantos romances incertos
que amar tornou-se antes uma palavra
que uma emoção.
Já negou tanto a seus artistas
que atuar tornou-se antes uma sobrevida
que uma dádiva, um dom.
Quem nasce para a arte,
se do amor quer ter parte,
antes inventa-o.
Idealiza-o.
Torna-o palpável e quase degustável.
Não adianta colocar num diálogo
quem nasceu para solilóquio.
Contracenar musa e admirador,
em que musa vive sorrindo,
e admirador morre chorando.
Eis que a vida festeja o público,
não quem o atraiu.
Se da vida quer um aparte,
antes da arte,
traz o casco que haverá de lhe abater as chicotadas.
Para participar do espetáculo da vida,
sofrer se faz a taxa de inscrição.

Conquista

Author: Silvair Junior /

Fico no aguardo do dia em que meu fardo
far-se-á ao largo.
Poder, não posso pedir tal blasfêmia.
É que de fardo vivo para ao largo fazer-me
Viver de inércia seria, deveras, pior.
Fico no aguardo daquele beijo
que acabará por fenecer
o senso do real,
desvanecer da vida o que é mortal.
Algum igual? Nunca tive.
Dos vários, sequer um semelhante.
Fico no aguardo do dia...
Ah, do dia que fará de todos os outros
continentes à deriva.
Do dia que fará o passado invejar o presente,
pensar no que seria.
Fico no aguardo do sorriso que
mesmo omisso brilha tal qual
a primeira estrela da noite.
Que açoite é esperar por esse sorriso.
Fico no aguardo do calor, quem sabe, humano,
embora eu espere um engano da vida,
que me mande um calor etéreo,
que acabará por fazer de mim, mistério.
Um calor que emane de dentro
e percorra todo o verbo que de minha mão sair.
É que de aguardo, de fardo e de criar eu vivo.
O que há além do que conheço
vem como dádiva:
tenho.
Mereço?

E agora?

Author: Silvair Junior /

E quando chega o fim?

Eis aí um novo começo?
Um presságio de um novo fim?
Respirando eu o verbo e expelindo a rima, 
é natural que achem que achem que sei de tudo.
Como posso eu saber de tudo,
se nem sei o que é tudo?
Como posso eu continuar a escrever
sobre aquilo que vivo e sinto,
se o que por muitos anos senti
agora encontrou um fim?
Fim?
Será?
Se as histórias começassem pelo fim,
não esperaríamos por ele, e sim, por um começo.
Mas esta começou pelo começo.
Durou tempo demais.
Tirou demais dos meus dias amenos.
Mas agora que chegou ao fim,
e agora?
Não se pode pedir ao dia que 
comece de novo.
O amanhã nunca será igual ao ontem.
Não se pode pedir para a morte 
voltar a ser vida.
Uma vez morto, só se vive em pensamento.
Não se pode pedir ao fim 
que comece novamente.
Ao se haver um novo começo,
mesmo seu fim, será diferente daquele fim
que eu imaginava ter de novo.
Posso acabar esse texto aqui.
Será então o fim dele,
ou o começo de um próximo?
Ou será que este nem começou?
Apenas sentei-me e me coloquei a escrever
sem cronologia.
Sem fins nem recomeços.
Sem recaídas, sem tropeços.
Sem nada.
E agora?

O triste (?) fim de Cícero

Author: Silvair Junior /

Contarei agora a curta vida de Cícero:
Cícero, um garoto de sonhos poucos, mas bastos.
Garoto. Nem adulto chegou a ser.
Andava tão a esmo que seguia a própria sombra para ter quem lhe desse um rumo
Cícero gostava do cheiro de terra molhada, "quantos  tiveram que chorar para que chovesse tanto?", perguntava-se.
Gostava de pintar, "quantas primaveras tiveram de ser encapsuladas nestes lápis para que eu tivesse essas matizes?", perguntava-se.
Amou pouco, mas amou muito. Acreditava na eternidade efêmera e na efemeridade eterna.
"Casarei? Terei filhos? Gêmeos? Feliz, serei? Cumprirei tudo o que falei?"
Ah, mas Cícero era tolo. Achava que sabia tudo, mas sequer sabia o que era tudo.
Quantos mais olhava para as estrelas, e assim, julgava possuí-las, mais elas fitavam-no com piscadelas de deboche. Sabiam o que se seguiria.
Cícero gostava de sentir. Qualquer coisa. Dor, calor, amor, terror...
Tinha que sentir para seguir.
Quando não sentia, inventava e seguia.
Adorava dias acinzentados, "estando tudo sem, a cor fica sob meu encargo", dizia.
Criava mais nos dias amenos, nos dia frios, nos dias sem cor.
Fazia das suas criações um pincel celeste.
Num dia excepcionalmente cinza,
Cícero sentiu como nunca,
importou-se como nunca,
lembrou-se de tudo,
de todos,
recordou-se do que disse,
do que não disse,
do que poderia ter dito.
O coração que a vida lhe manteve, assim a tirou.
Parou de bater, obstruído por pensamentos.
Pobre Cícero...
Se ele soubesse que era mais fácil viver uma vida vazia,
talvez nunca tivesse sentido nada na vida...

Eu digo sim!

Author: Silvair Junior /

Para a chuva de verão refrescando a pele quente,

para o amor da vida jovem, aquele amor ardente,
para o dia inesquecível, incorruptível à minha mente,
para o filho não nascido, aquele iminente,
para o grito retraído, externado de repente,
para o viço perene, finito a toda gente,
para o riso exibido, aos olhos iridescente,
para tudo, para o fuso e o confuso,
ao cálido, ao gélido e ao triunfante,
ao velho carinho, ao gesto fascinante,
Eu digo sim!

Estranha normalidade

Author: Silvair Junior /

Me disseram porém, que para ser normal,
basta não ser estranho.

E se todos no mundo fossem estranhos?
Ser normal seria estranho?
Dê-me o sentido.
Dê-me o conceito.
Sou estranho, não nego.
Amo, choro, rio, imploro,
crio, devoro.
Enquanto olham para a lua,
eu a disseco em tinta.
Faço do papel o meu céu, 
da mesa meu universo,
minha mente, meu infinito.
Serei estranho até que os "normais"
percebam a vida,  não o que dela é supérfluo.
Até que as amarras pereçam e possamos correr,
dar cambalhotas e pular até os dias findarem.
Até que ser normal seja estranho e insólito.
Me disseram porém, que para ser normal,
basta não ser estranho.
Você ama?
Então é estranho.
Apostar todas as suas fichas
sem querer nada m troca a não ser amor.
Dormir pensando no outro,
acordar pensando no outro,
viver para o outro.
Apostar no recente torcendo pelo futuro,
sem certeza do que virá.
Isso é normal?
É mais que estranho.
Eu digo porém, 
ser estranho é essencial 
para se levar uma vida normal.
No fim das contas,
ricos, pobres, feios, bonitos...
Somos todos estranhos.
É isso que faz a vida passível de ser vivida.

Prima Vera

Author: Silvair Junior /

Canto com a voz baixa, quase que esvaída.
Ando por baixo do céu contando as estrelas
refletidas nas poças d'água.
Ou não estaria eu andando por debaixo do chão
contando as poças d'água refletidas nas estrelas?
Voo baixo.
Nem asa tenho.
É sensação da liberdade que nunca tive,
da mortandade que nunca vive,
da vivacidade que nunca morre.
É que tornou-se a vida tão errante
quanto as pétalas fenecem após a primavera.
Prima Vera mal sabe que o verão já vai surgindo.
Mal sabe ela que por noites sonho com ela,
pernoites dedico a ela.
É que ver, sentir e até mesmo rir já
não mais pode satisfazer-me.
Quero mais.
Prima Vera mal sabe que nem existe,
é só um triste pensamento meu.
Prima Vera mal sabe que enquanto canto,
enquanto ando,
enquanto voo,
ressoo os sons de outrora.
Daquela outra hora,
daquela ínfima e estúpida hora
em que tudo parou de fazer sentido.
Onde já se viu céu ter estrelas?

Um dia

Author: Silvair Junior /

Um dia, talvez, eu veja o que
um dia quis ver.
Um dia, quem sabe, eu ame de novo quem
um dia amei.
Um dia, queira Deus, farei aquilo que
um dia desejei fazer.
Um dia qualquer tornar-se-á aquele
um dia que sempre esperei.
Um dia, de repente, deixará de ser
um dia para ser um eternamente.
Um dia serei feliz não do jeito que fui
um dia, mas de um jeito inconsequente.
Um dia a mais,
um dia a menos.
Um dia insólito,
um dia ameno.
Um dia grandioso,
um dia sereno.
Um dia sou isso,
um dia sou aquilo.
Um dia, não mais que
um dia...
Um dia é o que preciso para saber que
um dia não é suficiente.
Um dia me vejo aqui,
um dia me vejo acolá.
Um dia, quem sabe, eu não viva de amores de
um dia.
Um dia foi-se minha cantoria,
um dia ela voltará.
Passou-se um mês.
Ainda não sei o que fazer dos
meus dias...

Escrever, crer, ver.

Author: Silvair Junior /


A ponta do lápis atrita no papel virgem: eis o começo de tudo.
O lápis vai e vem, rodeia, tamborila, risca, rabisca, rasura...
Clausura! Disto sim eu preciso pra criar.
Física? Nem sempre. A mental é melhor.
Enclausurar tudo o que não vale o tempo perdido
pegar tudo o que vale e compactar naquela mínima
ponta do lápis fazer sair organizado.
Ou não. Ou sim. Sim?
Quem disse que verso é organização?
Não comecei a escrever estando em ordem com a mente,
é justamente por estar em constante conflito que preciso
desse mesmo lápis, agora com a ponta começando a arredondar,
para reordenar tudo.
E o nada também.
Agora o luxo morto inacessível a nós vivos:
apagar.
Apagar o que foi escrito. Não se encaixou.
Aceito a desordem, mas uma desordem aprazível.
Ou não.
Talvez eu devesse apagar todo este um.
Não está aos meus olhos agradando.
Quem disse que verso é pra ser bonito?
Verso é pra ser lido.
Quem disse?
Diga isto àquela garota que neste momento
está trancada no quarto rimando secretamente os adjetivos
do seu amado.
Diga isto àquele garoto que está trancado no quarto
secretamente musicando os adjetivos de sua amada.
Alguém diga isto aos dois pelo amor de Deus!
Talvez eles nem sabem que se amam.
E eis que a ponta do meu lápis está muito arredondada.
Agora não acho meus versos bonitos nem de conteúdo
nem de aparência.
Enquanto torno o grafite afiado novamente,
furo o dedo acidentalmente.
Que tanto "mente"!
Isso é coisa de gente
que nem sente que tem em mente
o inconsequente, o irreverente e o inconveniente
ali, inerente ao ser decadente.
O lápis vai e vem...
vem e vai...
Mal sabe ele que temos tanto em comum.
Estamos no mesmo planeta, estamos vivos.
E quem disse que lápis é algo vivo?
Ora, não viu tudo o que ele acabou de fazer?
Escreveu isso tudo e ainda tem que ser considerado morto...
Que abuso.
Mas quem escreve é o escritor, não o objeto.
Ignorância.
Você é escritor, você sabe melhor do que eu.
Eu? Escritor? Terei que riscar muito papel ainda pra me tornar um,
 mesmo assim, eu acho um lápis tão humano quanto nós.
Como assim?
Eu explico se você disser para aquele jovem do qual falei anteriormente
parar de lançar acordes aleatoriamente na busca da melodia perfeita.
Está me dando nos nervos.
Tudo bem.
Podemos então?
Sim.
Um lápis. Ah... um lápis.
Eu poderia escrever uma ode a ele e com ele. Não é extraordinário?
Não é isso tudo. Ainda não estou convencido.
Veja só: o lápis é essencialmente manipulado,
serve até a exaustão,
é achado com a mesma rapidez com que é perdido e,
como todos nós, finito.
Só por isso?
Não, eu o acho até mais digno.
Mas como?
Ora, ele começa grande. De grandes ideias,
de grandes expectativas.
O normal é, conforme é gasto, as ideias diminuírem.
O lápis não. Escreve as mais lindas poesias
independente do quão gasto esteja.
Por fora é um lápis gasto, por dentro, o mesmo lápis
que sempre fora.
Entendo.
Mesmo?
Sim.
Claro que não!
Entendo sim.
Quem disse que poesia foi feita pra ser entendida?
Nem pra ser lida é...
Oi?
Você ainda está aí?
Ora veja só.
Eis que minha consciência veio
tão rápido quanto a velocidade deste lápis e assim se foi.
Talvez eu devesse apagá-la, mas...
Como então iria então meu lápis escrever?
Escrever é uma eterna batalha de si contra si mesmo.
Uma batalha em que o medo sempre perde, embora não haja ganhadores.
É mais que um dom e menos que um privilégio.
Escrever é se perder num mar de palavras
esperando ser por alguém encontrado.
Serei eu escritor? Perdido estou, é bem verdade.
Sei que escrever é até simples:
pega-se um papel, uma lápis e uma borracha
(para mostrar para a vida o poder que ela não tem).
Depois, risca-se até sair algo de bom.
Ou de ruim.
Ou nada.
Sei que escrever é como fazer amigos:
é sem jeito no início, embaraçoso.
Às vezes espontâneo e inesperado.
Com o tempo, surge dali um entrosamento.
Dali, um cotidiano.
Dali, uma dependência.
Dali, uma amizade.
Dali, o poder de fazer novas amizades.
Dali, fazer o processo todo de novo.
Dali, sentir aquele apego aos primeiros e velhos amigos,
às primeiras  velhas poesias.
Dali, refazer todo o processo.
Dalí não era um pintor?
O papel acabou.
Todo e qualquer espaço foi preenchido pelo negrume do grafite.
Poderia eu apagar este um.
Recomeçar.
Refazer do zero.
Mas que tipo de pessoa seria eu se apagasse os velhos versos?
Do papel sim, da mente não.
Posso eu apagar mil poemas do papel sem apagá-los da memória.
Lembro-me de cada um que escrevi,
lembro-me daqueles que não escrevi por que não queria
que meus olhos vissem o que estava em minha mente.
Lembro-me até de como comecei este um.
Um lápis e um papel.
Será que não foi assim que a vida começou?

Tempo

Author: Silvair Junior /

Quero que o tempo passe rápido, mas não quero que passe nunca. Quero saber como será o amanhã, mas não quero abandonar o que é hoje. Quero saber se os amigos de hoje serão os mesmos amanhã, mas não quero propôr apostas que podem levá-los antes do previsto. Quero saber o que serei na vida, mas não quero abandonar essa excitação pela expectativa. Quero me emocionar hoje por coisas bestas, mas não quero que amanhã elas me façam besta e não me emocionem mais. Quero um amor de ontem, mas o quero hoje para vivê-lo até amanhã. Quero uma manhã tenra, mas quero que à tarde eu esteja leve para  noite. Quero filhos, mas não quero que eles sejam como eu sou, ou como serei. Quero felicidade, não efemeridade, quero ontem hoje e amanhã, uma feliz idade.

Que tamanho queres ter?

Author: Silvair Junior /

Ser do tamanho dos seus sonhos. Que é isso?
Fazer do sol uma faísca
fazer do dia um ato efêmero
fazer da vontade o feito
fazer do feito, efeito.
Fazer do fazer, ser
e ser mais do que se pode fazer.
Fazer da contradição, ação
do inóspito, propósito
do que fere, fé
do que prefere, definitivo.
Ser do tamanho dos sonhos
é ser do tamanho da felicidade.
Verdade.

Faz sina

Author: Silvair Junior /

Saudo as vísceras de minha recatada vida!
Isso porque eu e minha vida somos almas diferentes,
isso porque eu e minha alma somos vidas diferentes.
Saudo minha existência de epítomes,
de sístoles,
de diástoles.
Saudo as coisas puras.
É que as aprecio como quem contempla o sol nascente,
saudo as coisas impuras por consequência.
É que delas me valho para ter referência.
Saudo as rimas que a este desatina,
concretizando assim minha sina de cantar o que é belo
saudar o que é singelo, tomar a vida por flagelo,
a vida por esvaída, o amor por uma sobrevida.
Saudo meus olhos, não por serem meus,
mas pelo que veem.
Embora odeiem metade do que chega à retinas.
Ora, a mim tudo fascina,
há o que me fere, não que eu espere partir sem feridas.
As feridas de uma vida esvaída.
Eis que já me vejo saudando demais.
Espero agora quem ou o que me saude,
aguardo no cais.
Espero não esperar demais.
Reciprocidade, cumplicidade.
Sem mais.

Lenda(?)

Author: Silvair Junior /

Uma vez foi contada uma história. Não uma história comum, aliás, nem mesmo história era. Era uma aflição. Uma aflição que tentaram com todas as forças demoníacas existentes em todos os infernos descerem pela garganta de uma história. E conseguiram.
Contou-se nesta vez que um garoto, não mais que isso, decidiu a duras penas... Viver. Gostraia de apenas ter gasto todos seus estúpidos minutos com cantigas de roda ou pisoteando algum inseto, mas, ao invés preferiu viver. Sabia no que aquilo poderia acarretar. Se sabia.
Tinha os pés cravados no chão. Era uma dor lancinante. A terra pressionava seus tornozelos com tal força que o garoto sentia os tendões serem esmagados contra seus ossos fracos. tentava mexer os dedos na esperança de que a terra se sentisse incomodada com aquelas cócegas e o largasse enfim, mas, ela ria dele. Ria-se de ter um garoto preso em sua essência.
O garoto cambaleou e caiu de frente. Os pés não cederam. A terra não cedeu. Seus joelhos não aguentaram aquilo e inverteram-se. O pobre garoto pôde ouvir o som de seus ossos se quebrando, mesmo sob seus gritos incansáveis de dor.
A terra foi entrando lentamente pela boca ensanguentada do garoto. Não havia nada que ele pudesse fazer. Seus olhos eram vagarozamente tomados por aquela terra úmida e infestada de vermes.
Sentia sua carne sendo penetrada por ínfimos grãos da terra. Aquilo doía. Não uma dor forte, mas, suficiente para que o garoto quisesse a morte mais do que respirar.
Enquanto era devorado pela terra agora besuntada por seu sangue, tentava lembrar dos momentos felizes que teve. Tentava, mas, não conseguia. A terra já havia cmoido por inteiro seu cérebro. Ergueu a cabeça para ver o que ainda restava de seu corpo, mas, não conseguia. A terra já havia devorado seus olhos.
Pedaço por pedaço de carne inocente, o garoto foi por inteiro devorado e digerido por vermes vorazes.
Contou-se esta aflição sem que agradasse a um só ouvido.
Tentou-se transformá-la em história, para ver se a alguém agradava. História se fez, mas, ainda assim não conseguiu agradar ninguém.
Tudo por que conta a história de um garoto que tentou viver e... Falhou.

Não requer título

Author: Silvair Junior /

Mais que uma ânsia, minha ganância é amor.
Amor desmedido,
dedicado a algo que não deve ser amado.
Mais que apreço,
meu amor é ganância.
Ganância desmedida,
dedicada a você, que nunca deveria ter sido amada.