Conquista

Author: Silvair Junior /

Fico no aguardo do dia em que meu fardo
far-se-á ao largo.
Poder, não posso pedir tal blasfêmia.
É que de fardo vivo para ao largo fazer-me
Viver de inércia seria, deveras, pior.
Fico no aguardo daquele beijo
que acabará por fenecer
o senso do real,
desvanecer da vida o que é mortal.
Algum igual? Nunca tive.
Dos vários, sequer um semelhante.
Fico no aguardo do dia...
Ah, do dia que fará de todos os outros
continentes à deriva.
Do dia que fará o passado invejar o presente,
pensar no que seria.
Fico no aguardo do sorriso que
mesmo omisso brilha tal qual
a primeira estrela da noite.
Que açoite é esperar por esse sorriso.
Fico no aguardo do calor, quem sabe, humano,
embora eu espere um engano da vida,
que me mande um calor etéreo,
que acabará por fazer de mim, mistério.
Um calor que emane de dentro
e percorra todo o verbo que de minha mão sair.
É que de aguardo, de fardo e de criar eu vivo.
O que há além do que conheço
vem como dádiva:
tenho.
Mereço?

E agora?

Author: Silvair Junior /

E quando chega o fim?

Eis aí um novo começo?
Um presságio de um novo fim?
Respirando eu o verbo e expelindo a rima, 
é natural que achem que achem que sei de tudo.
Como posso eu saber de tudo,
se nem sei o que é tudo?
Como posso eu continuar a escrever
sobre aquilo que vivo e sinto,
se o que por muitos anos senti
agora encontrou um fim?
Fim?
Será?
Se as histórias começassem pelo fim,
não esperaríamos por ele, e sim, por um começo.
Mas esta começou pelo começo.
Durou tempo demais.
Tirou demais dos meus dias amenos.
Mas agora que chegou ao fim,
e agora?
Não se pode pedir ao dia que 
comece de novo.
O amanhã nunca será igual ao ontem.
Não se pode pedir para a morte 
voltar a ser vida.
Uma vez morto, só se vive em pensamento.
Não se pode pedir ao fim 
que comece novamente.
Ao se haver um novo começo,
mesmo seu fim, será diferente daquele fim
que eu imaginava ter de novo.
Posso acabar esse texto aqui.
Será então o fim dele,
ou o começo de um próximo?
Ou será que este nem começou?
Apenas sentei-me e me coloquei a escrever
sem cronologia.
Sem fins nem recomeços.
Sem recaídas, sem tropeços.
Sem nada.
E agora?

O triste (?) fim de Cícero

Author: Silvair Junior /

Contarei agora a curta vida de Cícero:
Cícero, um garoto de sonhos poucos, mas bastos.
Garoto. Nem adulto chegou a ser.
Andava tão a esmo que seguia a própria sombra para ter quem lhe desse um rumo
Cícero gostava do cheiro de terra molhada, "quantos  tiveram que chorar para que chovesse tanto?", perguntava-se.
Gostava de pintar, "quantas primaveras tiveram de ser encapsuladas nestes lápis para que eu tivesse essas matizes?", perguntava-se.
Amou pouco, mas amou muito. Acreditava na eternidade efêmera e na efemeridade eterna.
"Casarei? Terei filhos? Gêmeos? Feliz, serei? Cumprirei tudo o que falei?"
Ah, mas Cícero era tolo. Achava que sabia tudo, mas sequer sabia o que era tudo.
Quantos mais olhava para as estrelas, e assim, julgava possuí-las, mais elas fitavam-no com piscadelas de deboche. Sabiam o que se seguiria.
Cícero gostava de sentir. Qualquer coisa. Dor, calor, amor, terror...
Tinha que sentir para seguir.
Quando não sentia, inventava e seguia.
Adorava dias acinzentados, "estando tudo sem, a cor fica sob meu encargo", dizia.
Criava mais nos dias amenos, nos dia frios, nos dias sem cor.
Fazia das suas criações um pincel celeste.
Num dia excepcionalmente cinza,
Cícero sentiu como nunca,
importou-se como nunca,
lembrou-se de tudo,
de todos,
recordou-se do que disse,
do que não disse,
do que poderia ter dito.
O coração que a vida lhe manteve, assim a tirou.
Parou de bater, obstruído por pensamentos.
Pobre Cícero...
Se ele soubesse que era mais fácil viver uma vida vazia,
talvez nunca tivesse sentido nada na vida...

Eu digo sim!

Author: Silvair Junior /

Para a chuva de verão refrescando a pele quente,

para o amor da vida jovem, aquele amor ardente,
para o dia inesquecível, incorruptível à minha mente,
para o filho não nascido, aquele iminente,
para o grito retraído, externado de repente,
para o viço perene, finito a toda gente,
para o riso exibido, aos olhos iridescente,
para tudo, para o fuso e o confuso,
ao cálido, ao gélido e ao triunfante,
ao velho carinho, ao gesto fascinante,
Eu digo sim!

Estranha normalidade

Author: Silvair Junior /

Me disseram porém, que para ser normal,
basta não ser estranho.

E se todos no mundo fossem estranhos?
Ser normal seria estranho?
Dê-me o sentido.
Dê-me o conceito.
Sou estranho, não nego.
Amo, choro, rio, imploro,
crio, devoro.
Enquanto olham para a lua,
eu a disseco em tinta.
Faço do papel o meu céu, 
da mesa meu universo,
minha mente, meu infinito.
Serei estranho até que os "normais"
percebam a vida,  não o que dela é supérfluo.
Até que as amarras pereçam e possamos correr,
dar cambalhotas e pular até os dias findarem.
Até que ser normal seja estranho e insólito.
Me disseram porém, que para ser normal,
basta não ser estranho.
Você ama?
Então é estranho.
Apostar todas as suas fichas
sem querer nada m troca a não ser amor.
Dormir pensando no outro,
acordar pensando no outro,
viver para o outro.
Apostar no recente torcendo pelo futuro,
sem certeza do que virá.
Isso é normal?
É mais que estranho.
Eu digo porém, 
ser estranho é essencial 
para se levar uma vida normal.
No fim das contas,
ricos, pobres, feios, bonitos...
Somos todos estranhos.
É isso que faz a vida passível de ser vivida.