Fico no aguardo do dia em que meu fardo
far-se-á ao largo.
Poder, não posso pedir tal blasfêmia.
É que de fardo vivo para ao largo fazer-me
Viver de inércia seria, deveras, pior.
Fico no aguardo daquele beijo
que acabará por fenecer
o senso do real,
desvanecer da vida o que é mortal.
Algum igual? Nunca tive.
Dos vários, sequer um semelhante.
Fico no aguardo do dia...
Ah, do dia que fará de todos os outros
continentes à deriva.
Do dia que fará o passado invejar o presente,
pensar no que seria.
Fico no aguardo do sorriso que
mesmo omisso brilha tal qual
a primeira estrela da noite.
Que açoite é esperar por esse sorriso.
Fico no aguardo do calor, quem sabe, humano,
embora eu espere um engano da vida,
que me mande um calor etéreo,
que acabará por fazer de mim, mistério.
Um calor que emane de dentro
e percorra todo o verbo que de minha mão sair.
É que de aguardo, de fardo e de criar eu vivo.
O que há além do que conheço
vem como dádiva:
tenho.
Mereço?
Conquista
Author: Silvair Junior /E agora?
Author: Silvair Junior /E quando chega o fim?
O triste (?) fim de Cícero
Author: Silvair Junior /Contarei agora a curta vida de Cícero:
Cícero, um garoto de sonhos poucos, mas bastos.
Garoto. Nem adulto chegou a ser.
Andava tão a esmo que seguia a própria sombra para ter quem lhe desse um rumo
Cícero gostava do cheiro de terra molhada, "quantos tiveram que chorar para que chovesse tanto?", perguntava-se.
Gostava de pintar, "quantas primaveras tiveram de ser encapsuladas nestes lápis para que eu tivesse essas matizes?", perguntava-se.
Amou pouco, mas amou muito. Acreditava na eternidade efêmera e na efemeridade eterna.
"Casarei? Terei filhos? Gêmeos? Feliz, serei? Cumprirei tudo o que falei?"
Ah, mas Cícero era tolo. Achava que sabia tudo, mas sequer sabia o que era tudo.
Quantos mais olhava para as estrelas, e assim, julgava possuí-las, mais elas fitavam-no com piscadelas de deboche. Sabiam o que se seguiria.
Cícero gostava de sentir. Qualquer coisa. Dor, calor, amor, terror...
Tinha que sentir para seguir.
Quando não sentia, inventava e seguia.
Adorava dias acinzentados, "estando tudo sem, a cor fica sob meu encargo", dizia.
Criava mais nos dias amenos, nos dia frios, nos dias sem cor.
Fazia das suas criações um pincel celeste.
Num dia excepcionalmente cinza,
Cícero sentiu como nunca,
importou-se como nunca,
lembrou-se de tudo,
de todos,
recordou-se do que disse,
do que não disse,
do que poderia ter dito.
O coração que a vida lhe manteve, assim a tirou.
Parou de bater, obstruído por pensamentos.
Pobre Cícero...
Se ele soubesse que era mais fácil viver uma vida vazia,
talvez nunca tivesse sentido nada na vida...
Eu digo sim!
Author: Silvair Junior /Para a chuva de verão refrescando a pele quente,
Estranha normalidade
Author: Silvair Junior /Me disseram porém, que para ser normal,
basta não ser estranho.
