Palco de todos

Author: Silvair Junior /

A vida é sim esse eterno espetáculo.
Escolhe os atores ao acaso
enquanto ficamos desejosos pelo papel de protagonista.
Os atos se sucedem em destoante consonância,
o fim submete o começo,
o meio se faz síntese e antítese dos companheiros.
A leveza da comédia se desvela e se anula na gélida tragédia,
altos e baixos se fazem texto narrado pelo destino,
a máscara crua protegendo a carne nua da realidade,
a pesada roupagem retendo o suor lacrimoso.
E assim a vida faz sua arte...
Faz de nós fantoches.
Manipula, usa, abusa, descarta
Confusa.
Já escreveu tantos romances incertos
que amar tornou-se antes uma palavra
que uma emoção.
Já negou tanto a seus artistas
que atuar tornou-se antes uma sobrevida
que uma dádiva, um dom.
Quem nasce para a arte,
se do amor quer ter parte,
antes inventa-o.
Idealiza-o.
Torna-o palpável e quase degustável.
Não adianta colocar num diálogo
quem nasceu para solilóquio.
Contracenar musa e admirador,
em que musa vive sorrindo,
e admirador morre chorando.
Eis que a vida festeja o público,
não quem o atraiu.
Se da vida quer um aparte,
antes da arte,
traz o casco que haverá de lhe abater as chicotadas.
Para participar do espetáculo da vida,
sofrer se faz a taxa de inscrição.

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