Canto com a voz baixa, quase que esvaída.
Ando por baixo do céu contando as estrelas
refletidas nas poças d'água.
Ou não estaria eu andando por debaixo do chão
contando as poças d'água refletidas nas estrelas?
Voo baixo.
Nem asa tenho.
É sensação da liberdade que nunca tive,
da mortandade que nunca vive,
da vivacidade que nunca morre.
É que tornou-se a vida tão errante
quanto as pétalas fenecem após a primavera.
Prima Vera mal sabe que o verão já vai surgindo.
Mal sabe ela que por noites sonho com ela,
pernoites dedico a ela.
É que ver, sentir e até mesmo rir já
não mais pode satisfazer-me.
Quero mais.
Prima Vera mal sabe que nem existe,
é só um triste pensamento meu.
Prima Vera mal sabe que enquanto canto,
enquanto ando,
enquanto voo,
ressoo os sons de outrora.
Daquela outra hora,
daquela ínfima e estúpida hora
em que tudo parou de fazer sentido.
Onde já se viu céu ter estrelas?
Prima Vera
Author: Silvair Junior /Um dia
Author: Silvair Junior /Um dia, talvez, eu veja o que
um dia quis ver.
Um dia, quem sabe, eu ame de novo quem
um dia amei.
Um dia, queira Deus, farei aquilo que
um dia desejei fazer.
Um dia qualquer tornar-se-á aquele
um dia que sempre esperei.
Um dia, de repente, deixará de ser
um dia para ser um eternamente.
Um dia serei feliz não do jeito que fui
um dia, mas de um jeito inconsequente.
Um dia a mais,
um dia a menos.
Um dia insólito,
um dia ameno.
Um dia grandioso,
um dia sereno.
Um dia sou isso,
um dia sou aquilo.
Um dia, não mais que
um dia...
Um dia é o que preciso para saber que
um dia não é suficiente.
Um dia me vejo aqui,
um dia me vejo acolá.
Um dia, quem sabe, eu não viva de amores de
um dia.
Um dia foi-se minha cantoria,
um dia ela voltará.
Passou-se um mês.
Ainda não sei o que fazer dos
meus dias...
Escrever, crer, ver.
Author: Silvair Junior /
A ponta do lápis atrita no papel virgem: eis o começo de tudo.
O lápis vai e vem, rodeia, tamborila, risca, rabisca, rasura...
Clausura! Disto sim eu preciso pra criar.
Física? Nem sempre. A mental é melhor.
Enclausurar tudo o que não vale o tempo perdido
pegar tudo o que vale e compactar naquela mínima
ponta do lápis fazer sair organizado.
Ou não. Ou sim. Sim?
Quem disse que verso é organização?
Não comecei a escrever estando em ordem com a mente,
é justamente por estar em constante conflito que preciso
desse mesmo lápis, agora com a ponta começando a arredondar,
para reordenar tudo.
E o nada também.
Agora o luxo morto inacessível a nós vivos:
apagar.
Apagar o que foi escrito. Não se encaixou.
Aceito a desordem, mas uma desordem aprazível.
Ou não.
Talvez eu devesse apagar todo este um.
Não está aos meus olhos agradando.
Quem disse que verso é pra ser bonito?
Verso é pra ser lido.
Quem disse?
Diga isto àquela garota que neste momento
está trancada no quarto rimando secretamente os adjetivos
do seu amado.
Diga isto àquele garoto que está trancado no quarto
secretamente musicando os adjetivos de sua amada.
Alguém diga isto aos dois pelo amor de Deus!
Talvez eles nem sabem que se amam.
E eis que a ponta do meu lápis está muito arredondada.
Agora não acho meus versos bonitos nem de conteúdo
nem de aparência.
Enquanto torno o grafite afiado novamente,
furo o dedo acidentalmente.
Que tanto "mente"!
Isso é coisa de gente
que nem sente que tem em mente
o inconsequente, o irreverente e o inconveniente
ali, inerente ao ser decadente.
O lápis vai e vem...
vem e vai...
Mal sabe ele que temos tanto em comum.
Estamos no mesmo planeta, estamos vivos.
E quem disse que lápis é algo vivo?
Ora, não viu tudo o que ele acabou de fazer?
Escreveu isso tudo e ainda tem que ser considerado morto...
Que abuso.
Mas quem escreve é o escritor, não o objeto.
Ignorância.
Você é escritor, você sabe melhor do que eu.
Eu? Escritor? Terei que riscar muito papel ainda pra me tornar um,
mesmo assim, eu acho um lápis tão humano quanto nós.
Como assim?
Eu explico se você disser para aquele jovem do qual falei anteriormente
parar de lançar acordes aleatoriamente na busca da melodia perfeita.
Está me dando nos nervos.
Tudo bem.
Podemos então?
Sim.
Um lápis. Ah... um lápis.
Eu poderia escrever uma ode a ele e com ele. Não é extraordinário?
Não é isso tudo. Ainda não estou convencido.
Veja só: o lápis é essencialmente manipulado,
serve até a exaustão,
é achado com a mesma rapidez com que é perdido e,
como todos nós, finito.
Só por isso?
Não, eu o acho até mais digno.
Mas como?
Ora, ele começa grande. De grandes ideias,
de grandes expectativas.
O normal é, conforme é gasto, as ideias diminuírem.
O lápis não. Escreve as mais lindas poesias
independente do quão gasto esteja.
Por fora é um lápis gasto, por dentro, o mesmo lápis
que sempre fora.
Entendo.
Mesmo?
Sim.
Claro que não!
Entendo sim.
Quem disse que poesia foi feita pra ser entendida?
Nem pra ser lida é...
Oi?
Você ainda está aí?
Ora veja só.
Eis que minha consciência veio
tão rápido quanto a velocidade deste lápis e assim se foi.
Talvez eu devesse apagá-la, mas...
Como então iria então meu lápis escrever?
Escrever é uma eterna batalha de si contra si mesmo.
Uma batalha em que o medo sempre perde, embora não haja ganhadores.
É mais que um dom e menos que um privilégio.
Escrever é se perder num mar de palavras
esperando ser por alguém encontrado.
Serei eu escritor? Perdido estou, é bem verdade.
Sei que escrever é até simples:
pega-se um papel, uma lápis e uma borracha
(para mostrar para a vida o poder que ela não tem).
Depois, risca-se até sair algo de bom.
Ou de ruim.
Ou nada.
Sei que escrever é como fazer amigos:
é sem jeito no início, embaraçoso.
Às vezes espontâneo e inesperado.
Com o tempo, surge dali um entrosamento.
Dali, um cotidiano.
Dali, uma dependência.
Dali, uma amizade.
Dali, o poder de fazer novas amizades.
Dali, fazer o processo todo de novo.
Dali, sentir aquele apego aos primeiros e velhos amigos,
às primeiras velhas poesias.
Dali, refazer todo o processo.
Dalí não era um pintor?
O papel acabou.
Todo e qualquer espaço foi preenchido pelo negrume do grafite.
Poderia eu apagar este um.
Recomeçar.
Refazer do zero.
Mas que tipo de pessoa seria eu se apagasse os velhos versos?
Do papel sim, da mente não.
Posso eu apagar mil poemas do papel sem apagá-los da memória.
Lembro-me de cada um que escrevi,
lembro-me daqueles que não escrevi por que não queria
que meus olhos vissem o que estava em minha mente.
Lembro-me até de como comecei este um.
Um lápis e um papel.
Será que não foi assim que a vida começou?
Tempo
Author: Silvair Junior /Quero que o tempo passe rápido, mas não quero que passe nunca. Quero saber como será o amanhã, mas não quero abandonar o que é hoje. Quero saber se os amigos de hoje serão os mesmos amanhã, mas não quero propôr apostas que podem levá-los antes do previsto. Quero saber o que serei na vida, mas não quero abandonar essa excitação pela expectativa. Quero me emocionar hoje por coisas bestas, mas não quero que amanhã elas me façam besta e não me emocionem mais. Quero um amor de ontem, mas o quero hoje para vivê-lo até amanhã. Quero uma manhã tenra, mas quero que à tarde eu esteja leve para noite. Quero filhos, mas não quero que eles sejam como eu sou, ou como serei. Quero felicidade, não efemeridade, quero ontem hoje e amanhã, uma feliz idade.
