Aproveitando que ninguém lê os lixos que escrevo, vou usar esse blog como local de escárnio. Não sei mais o que sinto, o que quero da vida, ou se quero uma vida. Não sei o que estou fazendo, se o que fiz, mesmo que pouco, fiz certo. Não ei de nada. Não sei de absolutamente nada. Não sei de porra nenhuma. Hoje sou apenas um corpo vagando por uma imensidão de nada. Tenho quase 22 anos, não fiz nada de relevante, não tenho o emprego dos sonhos e nem estou perto. Não faço arquitetura como me prometi há 4 anos, não sou feliz e estou aqui falando sozinho, me tornando cada vez mais incrédulo. Não sei se acredito em Deus como eu eu deveria, ou como eu disse acreditar a minha vida toda. E mais: não vejo razão para acreditar nem nele e nem mais em nada. Por que simplesmente não consigo sentir sua presença, mas, em contrapartida, posso sentir o demônio. Posso sentir sua alegria por me ver na merda. Isso eu consigo sentir bem. E sei lá. Não sei nem porque estou escrevendo tudo isso. Eu supostamente tenho gente que pode me ajudar mas algo em mim não quer ajuda. Algo em mim fica feliz por me ver triste e o resto de sanidade que tenho corrobora com isso. Parece que preciso estar triste o tempo todo para viver, mais do que dependo de respiração. Não encontro ninguém com quem possa conversar e que, de fato, vá me entender. Nem pais, irmãos, amigos, namorada. Ninguém. Ninguém é capaz de entrar na minha mente desvendá-la. Ninguém é capaz de saber o que diabos eu estou sentindo e o porquê de eu estar assim. Eu, tem horas, só queria simplesmente parar de respirar, mesmo sob os discursos de "você não tem problemas", "tem gente em situação bem pior que você". Mesmo com tudo isso, eu queria apenas e tão somente morrer, de forma rápida e indolor e de modo que ninguém soubesse, ou visse, ou se importasse, porque nem eu me importo mais. É isso.

Aquele soneto sobre quando o corpo trabalha mais que a mente.

Author: Silvair Junior /

Fiz de tudo e mais um pouco, de fato

Que fizera eu pra não mais prover
Do que dera Deus: o dom de escrever?
De rima ou prosa, não mais arrebato

Que fazer quando só ideia pouca
Emerge do poço já ressequido
Onde houve vida, nem um alarido
A voz que muito bradou, hoje rouca

Que viva eu só de instante e complacência 
Já que deste lirismo não mais sorvo
Sobrando de glória antiga, a demência

Já dei ao mundo o verbo, hoje estorvo
De mais inerte eis que agora absorvo
De poetas reais a inteligência.


(J.Freitas)

A importância de recomeçar

Author: Silvair Junior /

A vida bate portas na cara. Ela é extremamente mal educada. Paciência. Você foi criado aprendendo a respeitar as pessoas, a levar as visitas até a porta e lançar ao largo a convenção social: "ainda está cedo, fique mais". É assim. Recebemos educação o suficiente para olhar para a vida e ainda termos que aturar quando ela, friamente, nos bate a porta na cara. Entretanto, nada tem de ser como é. O que é para ser, será quando tiver de ser. 

Mas ora, isso não é lançar o futuro a prêmio? Não é lançar sorte sobre o que não precisa dela? Futuro é mais uma mistura de esforço e porta na cara do que de sorte. Ela ajuda, mas não passa de um ratinho traiçoeiro quando quer.
Por isso, recomeçar. É sempre tempo de recomeçar projetos, convicções, dores, amores, felicidades, ideias. Mesmo um começo está sujeito ao recomeço. Mas é claro: se está errado, é necessário fazer o certo. Se quebrou, tem-se que consertar. Caiu? Levante.
O importante é ter sempre a ciência de que, mesmo que a vida lhe bata inúmeras vezes a porta na cara, ainda há um bairro inteiro para se visitar. Um bairro, uma cidade, um país, um mundo. Bata na porta da casa ao lado. Não deu certo? Continue seguindo a rua. Há sempre um anfitrião pronto para lhe receber com um sorriso no rosto dizendo "fique à vontade". E mais: "não repare a bagunça".
Claro que é para reparar. Não só reparar. Fazer parte, fazer arte, gozar do momento em que, enfim, uma porta lhe foi aberta e você pode cruzá-la sem olhar para trás. 
Por isso, RECOMEÇAR.
Dias passam e repassam, anos acabam e recomeçam.
Porque não eu?

Os olhos de Marília.

Author: Silvair Junior /

Na Rua dos Nove ninguém nunca compreendia o porquê de Marília andar para cima e para baixo com os olhos vendados. Era angustiante vê-la levar uma vida de cega sem o ser.
Passava o dias a tatear o mundo à procuro do que quisesse, pelos caminhos que necessitava fazer. Não enxergava nada por opção. Vivia sorrindo. Como sorrir pela beleza da vida com as janelas da alma fechadas?
Marília tinha apenas dezoito anos. Uma jovem obstinada e sensível. Arranjava namorados facilmente e os perdia com a mesma facilidade. Que homem em sua idade iria querer seriedade. Ociosa idade esta. Coisa!
Nenhum conseguia mirar por muito tempo aqueles olhos azuis (sim, azuis e vendados 24h por dia). Alguma coisa incomodava aqueles garotos festeiros e imaturos: maturidade.
Ah, como era bom ficar ao lado de Marília! Menina alegre, o tempo todo sorria por nada e de nada. Nenhum dos chutes que levara da vida puderam abalar sua confiança em si mesma.
Nada. Nada... Até o dia em que conheceu João.
Menino de ouro. Tentava ver a felicidade em tudo. Passou a vida à procura da fórmula da felicidade.
Num dia qualquer, numa terça-feira terçã, Os olhos de Marília encontraram o sorriso de João. Foi como se o sol resolvesse aparecer em plena noite escura.
Os dois viveram dias mágicos. Ela sorrindo de orelha a orelha. Ele, à procura da fórmula plena da felicidade, embora Marília fosse boa parte dela. Era sua inspiração.
De chocolate quente em chocolate quente, de tarde de filme debaixo do cobertor em tarde de filme debaixo do cobertor, João teve seu câncer maligno diagnosticado. Felicidade... Nunca mais (?)
Marília perdeu o chão. O amor de sua vida, sua fórmula viva para a felicidade morreria antes sequer de ter o primeiro cabelo branco. João, tão rápido quanto veio, se foi. Levando com ele a alegria de Marília, mas não sem antes deixar a ela algumas palavras sussurradas ao pé do ouvido, em seus últimos suspiros.
A menina calma e serena passou poucos dias  triste, pois se lembrou de cada uma das palavras que João lhe disseram em seu leito de morte:
"Marília, minha pequena Marília. Só estou morrendo para tentar encontrar a fórmula para a felicidade que encontram os que estão no mundo dos mortos, porque a alegria do mundo dos vivos eu já encontrei."
Decidida e obstinada como era, Marília tomou uma decisão um tanto quanto estranha. Numa terça-feira terçã, decidiu vendar os olhos sem quê nem pra quê. Continuou a vida normalmente.
Um dia, sua mãe, preocupada com a sanidade mental da filha a questionou sobre o porquê daquilo.
"Quero guardar os momentos que vivi com João na memória a todo custo. Não preciso ver mais nada daqui para frente. Já vi tudo o que tinha para se ver de mais lindo. Agora, só abrirei novamente os olhos quando eu puder ver o que ele vê.", respondeu com um sorriso imenso.

Queria ter escrito um livro, mas só li.

Author: Silvair Junior /

             De tanto em tanto, é um dia a mais e um dia a menos. O tempo consegue passar tão rápido que algumas páginas da minha vida saem incompletas. Era para estar escrito "felicidade", mas só deu tempo de escrever "idade". Mas eu escrevo de trás para frente? Às vezes sim, só pra combinar com a minha vida de cabeça para baixo. Alguns trechos saem sem sentido. Mas nem sentido quero ou preciso pra viver. O dia nasce cresce, reproduz e morre e ninguém questiona. Alguns personagens vão ficando obsoletos, embora tenham sido protagonistas outrora. Começa-se a atribuir mortes épicas em respeito aos bons tempos. Ainda assim são mortes. Defuntos de lendas valem menos do que as próprias lendas. Enredos a parte, era para estar escrito numa página qualquer "sucesso", mas saiu apenas "cesso" (lá vai ele escrever de trás para frente). Cesso projetos antes mesmo de começá-los. Não é como se eu tivesse encontrado a cura para o câncer, mas para as feridas da minhas alma já cheguei perto. E mais uma vez a vida faz graça com a minha cara. Eu queria ter escrito "realização", mas só deu tempo de escrever "ação". Mas qual?

Tenho um cérebro muito egoísta. Pensa muito, mas parou de compartilhar comigo.

Author: Silvair Junior /

             Já apaguei e recomecei tantas vezes esse texto que me senti humilhado por não poder fazer o mesmo com a minha vida. E no fim, isso é tudo o que minha noite pôde conceber.

Receita para a felicidade

Author: Silvair Junior /

João dedicou sua vida a descobrir a fórmula para a felicidade. Tentou inúmeras receitas, misturas, apanhados. Nada.
Misturou tristeza com chocolate. Deu certo até, mas era algo paliativo.
Misturou pôr do sol com passeio no parque. Bem, ajudou que foi uma beleza, mas caiu a noite. Aquela escuridão toda deixou-o calmo, mas não com a felicidade que esperava.
Colocou num caldeirão de euforia uma pitada de festa. Que alegria! Que felicidade. Mas assim que o condimento evaporava, levava a alegria com ele. Não deu certo de novo.
"Não deu certo hoje, amanhã dará", dizia ele. Em busca da felicidade, ou feliz idade, aprendeu a ter paciência. A ter calma, ciência. Vez ou outra se via tendo a fé desafiada pelos obstáculos, mas nada que uma boa leitura com uma caneca de chocolate quente não resolvesse.
"Não deu certo hoje, amanhã dará."
João descobriu, entre uma receita e hoje, que estava com câncer. Tinha um resto de alegria, mas nenhum vestígio de cabelo.
"Tem como dar algo certo amanhã?", perguntou João à vida.
Logo ele cujo coração bombeava otimismo e pulmões se enchiam de esperança.
João passou dias, semanas, meses, apenas deitado. Diferente do que se esperaria, nem uma única centelha de pensamentos passou pela sua cabeça. Os dias se arrastavam com a velocidade de lesmas cansadas.
"Não vai mais dar certo. Nada dará certo."
De repente, não mais que de repente, João teve uma ideia. O que não pensara em meses, concluiu em segundos.
Pegou seu bloco de notas e anotou a receita definitiva com as mãos trêmulas e fracas:
"Felicidade não tem receita, tem aposta, tem panela queimada, tem bolo solado, tem arroz grudento, joelho ralado, dente quebrado, sorriso rasgado, beijo roubado, tem tentativas e falhas. Felicidade é um eterno subir e descer nessa montanha-russa perigosa que chamamos de vida!"
João fechou os olhos e, num sorriso terno e brando, se preparou para seu último looping. Como estava/foi feliz...