A ponta do lápis atrita no papel virgem: eis o começo de tudo.
O lápis vai e vem, rodeia, tamborila, risca, rabisca, rasura...
Clausura! Disto sim eu preciso pra criar.
Física? Nem sempre. A mental é melhor.
Enclausurar tudo o que não vale o tempo perdido
pegar tudo o que vale e compactar naquela mínima
ponta do lápis fazer sair organizado.
Ou não. Ou sim. Sim?
Quem disse que verso é organização?
Não comecei a escrever estando em ordem com a mente,
é justamente por estar em constante conflito que preciso
desse mesmo lápis, agora com a ponta começando a arredondar,
para reordenar tudo.
E o nada também.
Agora o luxo morto inacessível a nós vivos:
apagar.
Apagar o que foi escrito. Não se encaixou.
Aceito a desordem, mas uma desordem aprazível.
Ou não.
Talvez eu devesse apagar todo este um.
Não está aos meus olhos agradando.
Quem disse que verso é pra ser bonito?
Verso é pra ser lido.
Quem disse?
Diga isto àquela garota que neste momento
está trancada no quarto rimando secretamente os adjetivos
do seu amado.
Diga isto àquele garoto que está trancado no quarto
secretamente musicando os adjetivos de sua amada.
Alguém diga isto aos dois pelo amor de Deus!
Talvez eles nem sabem que se amam.
E eis que a ponta do meu lápis está muito arredondada.
Agora não acho meus versos bonitos nem de conteúdo
nem de aparência.
Enquanto torno o grafite afiado novamente,
furo o dedo acidentalmente.
Que tanto "mente"!
Isso é coisa de gente
que nem sente que tem em mente
o inconsequente, o irreverente e o inconveniente
ali, inerente ao ser decadente.
O lápis vai e vem...
vem e vai...
Mal sabe ele que temos tanto em comum.
Estamos no mesmo planeta, estamos vivos.
E quem disse que lápis é algo vivo?
Ora, não viu tudo o que ele acabou de fazer?
Escreveu isso tudo e ainda tem que ser considerado morto...
Que abuso.
Mas quem escreve é o escritor, não o objeto.
Ignorância.
Você é escritor, você sabe melhor do que eu.
Eu? Escritor? Terei que riscar muito papel ainda pra me tornar um,
mesmo assim, eu acho um lápis tão humano quanto nós.
Como assim?
Eu explico se você disser para aquele jovem do qual falei anteriormente
parar de lançar acordes aleatoriamente na busca da melodia perfeita.
Está me dando nos nervos.
Tudo bem.
Podemos então?
Sim.
Um lápis. Ah... um lápis.
Eu poderia escrever uma ode a ele e com ele. Não é extraordinário?
Não é isso tudo. Ainda não estou convencido.
Veja só: o lápis é essencialmente manipulado,
serve até a exaustão,
é achado com a mesma rapidez com que é perdido e,
como todos nós, finito.
Só por isso?
Não, eu o acho até mais digno.
Mas como?
Ora, ele começa grande. De grandes ideias,
de grandes expectativas.
O normal é, conforme é gasto, as ideias diminuírem.
O lápis não. Escreve as mais lindas poesias
independente do quão gasto esteja.
Por fora é um lápis gasto, por dentro, o mesmo lápis
que sempre fora.
Entendo.
Mesmo?
Sim.
Claro que não!
Entendo sim.
Quem disse que poesia foi feita pra ser entendida?
Nem pra ser lida é...
Oi?
Você ainda está aí?
Ora veja só.
Eis que minha consciência veio
tão rápido quanto a velocidade deste lápis e assim se foi.
Talvez eu devesse apagá-la, mas...
Como então iria então meu lápis escrever?
Escrever é uma eterna batalha de si contra si mesmo.
Uma batalha em que o medo sempre perde, embora não haja ganhadores.
É mais que um dom e menos que um privilégio.
Escrever é se perder num mar de palavras
esperando ser por alguém encontrado.
Serei eu escritor? Perdido estou, é bem verdade.
Sei que escrever é até simples:
pega-se um papel, uma lápis e uma borracha
(para mostrar para a vida o poder que ela não tem).
Depois, risca-se até sair algo de bom.
Ou de ruim.
Ou nada.
Sei que escrever é como fazer amigos:
é sem jeito no início, embaraçoso.
Às vezes espontâneo e inesperado.
Com o tempo, surge dali um entrosamento.
Dali, um cotidiano.
Dali, uma dependência.
Dali, uma amizade.
Dali, o poder de fazer novas amizades.
Dali, fazer o processo todo de novo.
Dali, sentir aquele apego aos primeiros e velhos amigos,
às primeiras velhas poesias.
Dali, refazer todo o processo.
Dalí não era um pintor?
O papel acabou.
Todo e qualquer espaço foi preenchido pelo negrume do grafite.
Poderia eu apagar este um.
Recomeçar.
Refazer do zero.
Mas que tipo de pessoa seria eu se apagasse os velhos versos?
Do papel sim, da mente não.
Posso eu apagar mil poemas do papel sem apagá-los da memória.
Lembro-me de cada um que escrevi,
lembro-me daqueles que não escrevi por que não queria
que meus olhos vissem o que estava em minha mente.
Lembro-me até de como comecei este um.
Um lápis e um papel.
Será que não foi assim que a vida começou?
Escrever, crer, ver.
Author: Silvair Junior /
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