O triste (?) fim de Cícero

Author: Silvair Junior /

Contarei agora a curta vida de Cícero:
Cícero, um garoto de sonhos poucos, mas bastos.
Garoto. Nem adulto chegou a ser.
Andava tão a esmo que seguia a própria sombra para ter quem lhe desse um rumo
Cícero gostava do cheiro de terra molhada, "quantos  tiveram que chorar para que chovesse tanto?", perguntava-se.
Gostava de pintar, "quantas primaveras tiveram de ser encapsuladas nestes lápis para que eu tivesse essas matizes?", perguntava-se.
Amou pouco, mas amou muito. Acreditava na eternidade efêmera e na efemeridade eterna.
"Casarei? Terei filhos? Gêmeos? Feliz, serei? Cumprirei tudo o que falei?"
Ah, mas Cícero era tolo. Achava que sabia tudo, mas sequer sabia o que era tudo.
Quantos mais olhava para as estrelas, e assim, julgava possuí-las, mais elas fitavam-no com piscadelas de deboche. Sabiam o que se seguiria.
Cícero gostava de sentir. Qualquer coisa. Dor, calor, amor, terror...
Tinha que sentir para seguir.
Quando não sentia, inventava e seguia.
Adorava dias acinzentados, "estando tudo sem, a cor fica sob meu encargo", dizia.
Criava mais nos dias amenos, nos dia frios, nos dias sem cor.
Fazia das suas criações um pincel celeste.
Num dia excepcionalmente cinza,
Cícero sentiu como nunca,
importou-se como nunca,
lembrou-se de tudo,
de todos,
recordou-se do que disse,
do que não disse,
do que poderia ter dito.
O coração que a vida lhe manteve, assim a tirou.
Parou de bater, obstruído por pensamentos.
Pobre Cícero...
Se ele soubesse que era mais fácil viver uma vida vazia,
talvez nunca tivesse sentido nada na vida...

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