Na Rua dos Nove ninguém nunca compreendia o porquê de Marília andar para cima e para baixo com os olhos vendados. Era angustiante vê-la levar uma vida de cega sem o ser.
Passava o dias a tatear o mundo à procuro do que quisesse, pelos caminhos que necessitava fazer. Não enxergava nada por opção. Vivia sorrindo. Como sorrir pela beleza da vida com as janelas da alma fechadas?
Marília tinha apenas dezoito anos. Uma jovem obstinada e sensível. Arranjava namorados facilmente e os perdia com a mesma facilidade. Que homem em sua idade iria querer seriedade. Ociosa idade esta. Coisa!
Nenhum conseguia mirar por muito tempo aqueles olhos azuis (sim, azuis e vendados 24h por dia). Alguma coisa incomodava aqueles garotos festeiros e imaturos: maturidade.
Ah, como era bom ficar ao lado de Marília! Menina alegre, o tempo todo sorria por nada e de nada. Nenhum dos chutes que levara da vida puderam abalar sua confiança em si mesma.
Nada. Nada... Até o dia em que conheceu João.
Menino de ouro. Tentava ver a felicidade em tudo. Passou a vida à procura da fórmula da felicidade.
Num dia qualquer, numa terça-feira terçã, Os olhos de Marília encontraram o sorriso de João. Foi como se o sol resolvesse aparecer em plena noite escura.
Os dois viveram dias mágicos. Ela sorrindo de orelha a orelha. Ele, à procura da fórmula plena da felicidade, embora Marília fosse boa parte dela. Era sua inspiração.
De chocolate quente em chocolate quente, de tarde de filme debaixo do cobertor em tarde de filme debaixo do cobertor, João teve seu câncer maligno diagnosticado. Felicidade... Nunca mais (?)
Marília perdeu o chão. O amor de sua vida, sua fórmula viva para a felicidade morreria antes sequer de ter o primeiro cabelo branco. João, tão rápido quanto veio, se foi. Levando com ele a alegria de Marília, mas não sem antes deixar a ela algumas palavras sussurradas ao pé do ouvido, em seus últimos suspiros.
A menina calma e serena passou poucos dias triste, pois se lembrou de cada uma das palavras que João lhe disseram em seu leito de morte:
"Marília, minha pequena Marília. Só estou morrendo para tentar encontrar a fórmula para a felicidade que encontram os que estão no mundo dos mortos, porque a alegria do mundo dos vivos eu já encontrei."
Decidida e obstinada como era, Marília tomou uma decisão um tanto quanto estranha. Numa terça-feira terçã, decidiu vendar os olhos sem quê nem pra quê. Continuou a vida normalmente.
Um dia, sua mãe, preocupada com a sanidade mental da filha a questionou sobre o porquê daquilo.
"Quero guardar os momentos que vivi com João na memória a todo custo. Não preciso ver mais nada daqui para frente. Já vi tudo o que tinha para se ver de mais lindo. Agora, só abrirei novamente os olhos quando eu puder ver o que ele vê.", respondeu com um sorriso imenso.
Os olhos de Marília.
Author: Silvair Junior /
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